Visita de Varanda

Hoje o poema é de um amigo
que é pequeno, mas tem alma imensa!
bjo,
Cajus!



Dádiva de mim


Ontem eu nasci.

nasci e trouxe comigo

a minha antiga eterna companheira.

Mas eu nasci.

Vivo hoje em todas as casas,

e desde meu nascimento,

sabia que iam me amar.

São poucos os traidores,

são todos os amantes,

muitos os que comigo não sabem lidar,

são poucos os que eu ensino a sofrer,

muitos os que não sofrem

por tudo ter,

menos a mim.

Sou, entretanto, de todos,

e sou assim, do meu jeito.

Sou indescritível.

Eu não tenho segredo,

sou simplesmente o que me deram para ser.

Eu sou o segredo.

Sou o que todos conhecem,

os que todos questionam.

Sou formada do ontem,

viva do hoje,

sou eterna sem precisar do amanhã.

Eu sou.

Minha significância

cabe dentro do mundo,

que colocam dentro de um berço.

Meu saber cabe numa estrofe de infância,

num verso de nós mesmos,

em uma palavra dos nossos pais.

Meu sentido diz tudo,

sem saber o que dizer.

Sou muito.

Sou a felicidade encontrada em cada um,

a tristeza de cada fim,

a angústia de todo começo.

Sou a solidão quando me têm,

sou somente o que posso ser.

Meu fim pode não ter um final,

mas posso ser dura.

Posso até não ser o bastante,

somente ser por um instante,

e depois,

memórias constantes.

Sou memórias,

sou meu oposto,

que são memórias também.

Sou parte das lembranças do dia,

sou a saudade que pode acabar,

o contentamento por somente ter-me.

Sou dádiva de todos,

castigo de alguns que só têm a mim,

mas têm à morte.

Sou juras, desejos,

injúrias, afagos,

sou todos, ao mesmo tempo

em que não sou de ninguém.

Vivo nas ruas,

durmo em...

eu não durmo.

Sou a futura morte companheira

sou o desequilíbrio de massas,

sou a clareza de dúvidas e incertezas.

Eu sou a única coisa

que só consegue ser aquilo que sempre será.

E eu sou sempre mais algo.

Não sou única, ou quem sabe sou?

Por isso não me trevo a me questionar,

sou somente o que sou, mais nada,

pois sou tudo. Sou vida.


(Pedro Cajueiro)