É só te ver na tela,
que meu mouse
vira mãozinha
e desliza
doido
pra te fazer
um carinho.
não vejo o que não existe.
se eu sinto, existe.

gosto do que é simples

 Açúcar mascavo, canela em pó, café da hora, broa fresquinha, queijo quente, cuscuz com ovo, mungunzá quente de assoprar, aipim molinho, suco de carambola, doce de carambola, tudo de carambola, sorvete de milho, milho cozido, bolo de milho, milho com tudo, rapadura, caldo de cana, melaço de cana, cana pura, manga rosa, banana prata, chá de capim cidreira, licor de jabuticaba, biscoito avoador, chimango, beiju, biscoito de aveia da minha vó, margaridinhas com azeitona, tangerina, amendoim cozido, assado, de picolé gelado, bolo de tapioca com doce de leite, doce de leite, doce de leite, doce de leite. Ah, como é gostoso o gosto da simplicidade.

Tentei achar
um poema
na borra do café,
mas só consegui
perder
o sono.

pingando

Cada
Gota
De
Chuva
Que
Cai
No
Chão
Faz
Riacho
Virar
Canção
.
.
.

gente-nuvem

Pessoas são como nuvens:
quanto mais transparentes,
mais eu consigo ver o seu sol.

Uma delicadeza


Por que Nós?
Marcelo Jeneci




Éramos célebres líricos
Éramos sãos
Lúcidos céticos
Cínicos não
Músicos práticos
Só de canção
Nada didáticos
Nem na intenção
Tímidos típicos
Sem solução
Davam-nos rótulos
Todos em vão
Éramos únicos
Na geração
Éramos nós dessa vez

Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação

Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão

Fomos serenos num mundo veloz
Nunca entendemos então por que nós
Só mais ou menos






Da não finitude do sentir





Me ocorreu que sentimentos nasceram e existem para serem eternos. E isso mexe também com muitas certezas e fórmulas de muito filósofo de plantão. Sentimentos não acabam. Nem mesmo quando as pessoas acabam. Sentimentos continuam. Sei lá, pelo menos os bons sentimentos (prefiro acreditar assim). Poxa, todo mundo, de alguma forma, acredita em um algo mais que nos rege. O sol, os antepassados, Deus, Buda...
Afora as crenças tão bonitas quanto particulares, eu também creio no pra sempre que é sentir. Se meu amor existiu, ele continuará existindo como amor. Puro. Fraterno. Se quem a gente ama não existe mais, se não nos vive mais, se a gente não quer saber mais, tanto faz: não é a gente que decide a hora de parar de sentir. Que bom! Imagino que do jeito que o mundo anda egoísta e imediatista, imagino o quanto de sentimento a gente não perderia por ai, por simples descrença, preguiça ou sei lá o quê.
Sentir não é de terra. Não é biodegradável. Não é de pó. Sentir é de ar. É o que a gente respira em cada abraço. É matéria-prima do oxigênio que compõe nossos átomos-alma. Aquela sensação de flutuar, de sentir chão faltar, de conhecer alguém de outras vidas, de amar antes de si próprio. Isso, me desculpem, não pode ser matéria racional com botão off. Não seria justo tanta evolução do ser se perder assim. Sentimentos, dos bons, que bom: não terminam no fim.

saudade passa?





Distância é uma saudade de passagem.

um dia

e um dia, quem sabe um dia, eu tenha pra mim tudo isso que sonho vir de você. tudo isso que vejo indo de você pra não sei aonde além-você. um dia, eu queria que um dia, tudo isso que hoje faz minha mão suar, meu coração acelerar, minha boca secar... que tudo isso fosse um dia, quem sabe um dia, um pouco meu. é um desejo. um desejo egoísta de que um dia, quem dera um dia, eu tenha você, de verdade, pra egoistar. um dia você pra aqui estar. e sentir minha mão suar. e gostar. um dia. você.

autopreservação


autopreservação 
é um ato de coragem:
coragem para não tocar
coragem para não falar
coragem para não insistir
no amor que não quer amar.

da felicidade e seus motivos



às vezes, me parece que tristeza e alegria são opções. tá, nem sempre. mas, sim, às vezes, talvez muitas vezes, ser-estar feliz ou desgostoso, é apenas uma decisão nossa. motivos, minha gente, a gente tem pra tudo, né? eu tenho e posso criar aqui um punhado de desesperanças, descrenças na humanidade, dúvidas existenciais, quilos a mais, amores de menos, egos destruídos, amizades quebradiças, faltas de coragem. eu tenho talento pra isso, pode crer. se você precisar ficar triste e quiser uma forcinha pra alcançar esse nirvana almodoviano, vem cá, é fácil. mas não hoje, sabe? ah, hoje eu tô com preguiça de tristezas. eu tô com muita preguiça de sentir peito apertar. de esperar. de angustiar. hoje, minha opção é pela mansidão, pelo apaziguar de sentir. pela alegria porvir. hoje, eu não preciso de muitos motivos para sorrir, porque meu sorriso está aqui. ele está sempre aqui. eu não preciso de motivos a mais, para me alegrar mais. essa busca incansável pela razão da felicidade é uma maluquice sem tamanho. ninguém é mais feliz porque trocou de carro. as pessoas são mais felizes porque trocaram o jeito de viver. trocaram as lamentações pelo olhar positivo. trocaram o amanhã pelo carpe diem. trocaram a falta de coragem, pela vontade de tudo viver. trocaram as complexidades, os poréns, pela simplicidade. e, falando em simplicidade, essa sim, me parece a mais pura forma de felicidade. minha felicidade hoje mora no olhar apertadinho do meu sobrinho quando ri. mora no azul do mar. no dia com ou sem nuvens. no docinho escondido no fundo da geladeira. mora no abraço apertado, nas palavras sinceras, nos pequenos atos de querer bem. minha felicidade hoje não procura motivos: já os encontrou.

cuidados com o amor

me prometa, amor
não gastar
a palavra amor.
não usar em vão,
não pronunciar 
ao vento.
poupa, amor.
poupa a palavra
pra não desgastar
o sentimento.

considerações sobre o silêncio


1)
Eu não respeito o seu silêncio.
Me respeite calado.

2)
Silêncio é quando a gente se cala para se ouvir.

3) 
Silêncio é ouvir inteiramente o que o outro insiste em calar. 

me diz a verdade


O que é verdade, meu bem?
O que é meu, de verdade?
Que parte de bem,
parte de você, meu bem?
O que é de verdade
nesse mundo-metade?
Se tudo que eu acredito
hoje parece ser demais
me diz, como faz pra ser inteiro,
sendo só uma parte?
Como faz pra ser verdade
se o que eu acredito
só vem em dupla-face?
Que sentido tem a vida
vista apenas de uma única verdade?