Despedida




Não chorei.
Não chorei quando eles se foram. Não chorei quando vi outros, inclusive meu próprio pai, chorando. Não chorei quando achei que tinha obrigação familiar de chorar. Minha mãe achou estranho, eu sei. Eu também. Senti alguma tristeza, alguma, mas não chorei.
Fiquei triste por ver a tristeza ao redor, talvez. Com certeza. Mesmo assim, não derramei uma gotinha. Até forcei, pra “tranqüilizar” a mim e a todos, mas não rolou.
- Ela é forte
Diziam.
Eu também achava.
Sempre digo que sou um reservatório de lágrimas. E é verdade. Mas não sabia que conseguia guardá-las por anos. Descobri que posso sim. Lágrimas envelhecidas em tonéis, safra 1992.
Era o mínimo que eles mereciam.
Guardei-as para derramar na presença deles. Senti a presença deles. E que saudades eu sentia. Quanto mais perto chegava, mais me apertava o coração, mais nós eu forçava minha garganta a ganhar na tentativa estúpida de não me derramar.
Mas, vendo aquele lugar, sentindo aquele lugar, me derramei. Me derramei intensa e pura, assim como aquele rio que corta o nosso lugar. Me derramei na tentativa muda de dizer: tchau.


“As pessoas não morrem, ficam encantadas”
Guimarães Rosa.